segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Noite de estrelas, noite de brilho, "Noite das Tríbades"




No final de uma tarde de março de 1889 se desenrola o ensaio de "A Mais Forte", de August Strindberg, no Teatro Dagmar, na Dinamarca. O próprio Strindberg supervisiona a montagem, que terá sua ex-esposa Siri Von Essen atuando como a Senhora X, e Marie Caroline David, amiga e amante de Siri, como a Senhora Y também será dirigida por aquela com a ajuda do ator dinamarquês Viggo Schiwe. Este é o pano de fundo para o texto do dramaturgo contemporâneo, e também sueco, Per Olov Enquist.

A montagem do Grupo Tapa, com direção de Malu Bazan, nos mostra o conflito que surge neste momento da recente separação de Srindberg (Norival Rizzo) com Siri (Clara Carvalho), ocasionada principalmente por Marie (Nicole Cordery). Tal embate é presenciado também pelo ator Viggo (Daniel Volpi).

Num texto digno do próprio Strindberg, Per Olov nos apresenta um pouco da história deste grande dramaturgo naturalista, revelando ao público o por que de sua misoginia, presente em muitas de suas obras.

Tríbades, se refere a tribadismo, ou seja o homosexualismo feminino na sua mais primitiva assepção. o contado dos órgãos sexuais femininos.

Clara Carvalho é perfeita na concepção de sua Siri, mostrando toda sua força/delicadeza aliada a sensualidade, seu afeto e respeito pelo ex-marido, pai de seus filhos e grande escritor que passa por momentos difíceis. Seus embates com Strindberg, numa surpreendente atuação de Norival Rizzo, são os pontos altos da trama. É como se presenciássemos  a luta de duas salamandras-de-fogo, tal a energia produzida pelo casal. Norival sabe dosar eficazmente os momentos de alta dramaticidade com toques de humor, que em pouquíssimas vezes se revela excessivo, mas não compromete nem um pouco sua atuação. Tal se justifica pela frequencia com que o ator assume papeis cômicos.

A sensualidade de Siri poderia ser mais forte, caso tivesse eco em Marie, vivida por Nicole Cordery que
compõe uma personagem estereotipada e que, infelizmente, não consegue envolver sua amante e nem transmitir alguma empatia que poderia estar associada ao liberalismo da sociedade sueca.

Daniel Volpi tem postura correta em seu Viggo, porém poderia também ousar mais em alguns momentos do espetáculo.

A direção segura e simples de Malu, dá liberdade para que os atores Clara e Norival mostrem todo seu trabalho nas personagens, sem qualquer pudor. Some-se a isso o belo cenário de Flávio Tolezani, que inclui uma linda tela que em determinado momento nos remete a "Os Espectros", de Ibsen, contemporâneo de Strindberg. Como também a iluminação de Isadora Giuntini, e a trilha sonora que encanta nos poucos momentos que surge.

Uma noite estrelada, uma noite úmida de verão, que nos conquista e faz o público acreditar na força do teatro, do Teatro feito com seriedade.......

Carlos Eduardo Carneiro