quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Teatro com "Atores" Reparam nossas feridas teatrais, e como!!!




Pela segunda vez assisti a montagem de "O Fantástico Reparador de Feridas", espetáculo do irlandês Brian Friel, mesmo autor de Dançando em Lúnassa, em cartaz no Viga.

Na primeira vez a montagem, ganhadora do prêmio da Cultura Inglesa, apresentada pela mesma Cia. Lúdens,  foi apresentada em sua versão integral (duas horas mais ou menos), no teatro da instituição cultural em Pinheiros.

Desta vez o texto foi "enxugado" para 90 minutos. O tempo em um espetáculo teatral é muito relativo, pois um espetáculo longo pode passar rápidamente, enquanto um extremamente curto pode levar horas para o seu final. Desde sua primeira montagem era isso que surpreendia em "O Fantástico Reparador de Feridas", não obstante o excelente texto do autor irlandês, era um espetáculo que prescindia de verdadeiros atores.
Nesta montagem, mais enxuta, isso, mais uma vez, é mostrado ao espectador.

A história de um homem, Frank, que tem o dom de curar doentes. Dom este que lhe foge ao controle, e traz alguns problemas a Teddy, empresário de artistas exóticos e decadentes, que o empresaria, levando suas curas a diversas cidades do interior. Com eles viaja também Grace, advogada, filha de um aristocrata rural e que vive com Frank, abdicando de seu conforto paterno. O dom de Frank (Walter Breda) lhe atormenta a consciência, o que o faz se refugiar na bebida. Grace (Mariana Muniz) tenta entender este conflito, e se aproximar mais do homem amado. Teddy (Rubens Caribé) transita de um para o outro, tentando conciliar suas próprias emoções.

Uma das grandes curiosidades do texto de Brian Friel é a de que ele é apresentado de forma narrativo, pelas três personagens, que relatam, separadamente, a sua versão dos acontecimentos. O que possibilita ao espectador montar a história e refletir sobre as lacunas que nelas possam existir.

Este estilo narrativo, que tem se tornado bastante habitual, torna-se um grande desafio para os atores, pois ele necessita de verdadeiros atores para que a história seja contada, bem contada.

Walter Breda, Mariana Muniz e Rubens Caribé cumprem sua tarefa com extrema competência.
Breda, um dos nossos grandes atores de teatro, conseguiu compor um Frank que envolve, argumenta e é fiel a suas crenças. Desta vez, o autor está completamente entregue à personagem, o que não acontecia efetivamente na montagem de 2009.

Mariana Muniz faz de sua Grace uma mulher sensível e forte, com gestos precisos e limpos, mas que ainda necessitam de um pouco mais de emoção, ou talvez uma "pitada" de entusiasmo para que ela reivindique sua posição como mulher, esposa, e mãe. O crescimento da atriz desde sua primeira montagem é nítido e surpreendente.

Rubens Caribé imprime em Teddy uma personalidade empática, alegre e confiante. Ele, Caribé, mostra que esta personagem o por que de ser um dos grandes atores de sua geração, infelizmente não muito celebrado pelo grande público. Desde a primeira montagem, Caribé nos proporciona uma criação exata deste empresário, com cores que cativam e mostram a verdadeira face de um grande ator, sou confronto vencedor com a palavra e a emoção. Na montagem de 2009 parece que Teddy tinha uma alegria maior do que a desta temporada, que agradava e dava um respiro para o final do espetáculo. Talvez porque houvesse uma dissonância com as outras personagens.

De forma geral, todos os três tem uma atuação perfeita, que só verdadeiros Atores, poderiam realizar, revelando ao público o que é realmente atuar, levar os sonhos ao palco.

Apesar do encurtamento da peça, e movimentação de elementos cênicos para o momento de cada uma das personagens, o espaço se torna muito grande para a encenação. Talvez se devesse dar mais atenção a iluminação que necessita fazer parte do espetáculo como personagem, quem sabe como uma forma de fio condutor que liga cenicamente as personagens.


Enfim, "O Fantástico Reparador de  Feridas" é, felizmente, uma grata experiência que nos faz acreditar que o Teatro de Atores ainda não morreu, e o que se necessita para que ele sempre ressurja é um pouco de talento e muito trabalho, trabalho, trabalho, trabalho e DEDICAÇÃO.

Carlos Eduardo Carneiro


FICHA TÉCNICA:
AUTOR: Brian Friel
TRADUÇÃO E DIREÇÃO: Domingos Nunez
COLABORAÇÃO EM PORTUGUÊS: Julio Cesar Pompeo
ELENCO: Walter Breda (Frank), Mariana Muniz(Grace), Rubens Caribé (Teddy)
PRODUTORA ASSOCIADA: Beatriz Kopschitz Bastos
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Julio Cesar Pompeo
CENOGRAFIA: Cia Ludens
FIGURINOS: Chico Cardoso
ILUMINAÇÃO: Aline Santini
TRILHA SONORA ORIGINAL: Ricardo Severo
OPERAÇÃO DE SOM E LUZ: Luz López
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Fabio Camara
FOTOS: Rodrigo Hypolitho
PROGRAMAÇÃO VISUAL: Hiro Okita
LOCAL: Centro Internacional de Teatro, ECUM. Rua da Consolação, 1623 – Consolação. Sala 1 (134 lugares). Estacionamento conveniado.
DATA: 10 de julho a 08 de agosto, quartas e quintas às 21h. 
INGRESSOS: R$ 40,00
INFORMAÇÕES: (11) 3255 5922
DURAÇÃO: 90 minutos
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos