terça-feira, 16 de abril de 2013

Notas sobre um (O) Casamento.


Não há o que se falar sobre a genialidade do grande dramaturgo, e cronista, Nelson Rodrigues, o qual teria completado 100 anos no último ano. Em função desta celebração, muitas de suas peças foram remontadas no teatro, toda sua obra relançada nas livrarias. Entre elas foi o caso de seu único romance, lançado com estrondoso sucesso em 1966 por encomenda de Carlos Lacerda, que havia aberto a editora Nova Fronteira. Lançado, e caçado no próprio ano pelo então ministro da Justiça Castelo Branco, por ser um "atentado contra a organização da família". Um romance com todos os ingredientes das histórias do escritor, que poderia ter continuado nesta seara não fosse o referido ato de censura  e a morte de seu pai, Mario Rodrigues, terem ocorrido à mesma época.

Relançado agora, frente às comemorações de seu centenário de nascimento, "O Casamento" ganhou também uma adaptação para o teatro, pelas mãos da diretora Johana Albuquerque, responsável também pela dramaturgia.

Adaptações, sejam elas para o teatro, cinema, ou televisão, apesar de sempre bem vindas, são de fato tarefas extremamente difíceis, uma vez que cada um desses veículos possui linguagem própria, e diferente, daquela utilizada na literatura, podendo resultar em produtos de qualidade duvidosa  e algumas vezes comprometendo até o autor, quando o público não conhece seu original, ou outras de suas obras.

Para esta montagem  se uniram dois grupos teatrais, a Bendita Trupe, capitaneada por Johana Albuquerque, e o Teatro Promíscuo, liderado pelo experiente Renato Borghi.

Conduzida em seu início de forma a nos levar ao universo de Nelson Rodrigues, e suas personagens polêmicas, o espetáculo peca principalmente pela frágil adaptação, fazendo com que a riqueza destas personagens não seja claramente esmiuçadas, uma vez que a história de um livro de praticamente 350 páginas deve ser apresentada num espetáculo de 2 horas (e foram mais). Dessa forma, a vitalidade da linguagem do autor, a crítica à uma sociedade hipócrita ficam enfraquecidas ao serem levadas à cena.

Renato Borghi, no papel de Dr. Sabino, não mostra toda a ousadia que um ator de sua experiência poderia revelar nesta personagem, cheia de nuances e contradições, o que é uma pena. Daniel Alvim, como Antonio Carlos e Teófilo (o homosexual) poderia trabalhar com a contenção, no entanto parte para o histrionismo.

Elcio Nogueira Seixas compõe muito bem a figura de Dr. Camarinha, não tendo tanto sucesso, porém, em sua composição de Zé Honório. Maurício de Barros se comporta bem como Xavier, mas carrega muito ao interpretar o Monsenhor, que no livro, pode até ser considerada a personagem mais livre de repressões severas, um paradoxo plausível e divertido, tratando-se de Nelson Rodrigues.

A grande surpresa da montagem fica por conta das atrizes, tendo em Diana Bouth uma Glorinha extremamente rodriguiana, Vera Bonilha como a amiga Maria Inês, a divertida mãe D. Eudoxia e a torturada esposa de Xavier. Regina França se sai muito bem em sua Noêmia, pena que a adaptação não lhe favorece mais momentos para que ela explore mais sua personagem, assim como é o caso de Eudoxia.

Johana Albuquerque assina uma direção em que há momentos muito criativos e que mostram o cuidado com a encenação, como a cena da festa logo no início do espetáculo, e aquela, que transpira o universo de Nelson em que estão Maria Inês, Gloriha e Antonio Carlos.

Impecáveis figurinos de Simone Mina que soube muito bem ambientar o elenco em meados dos anos 60, com muita criatividade e estilo. André Cortez consegue leveza, mistério e luxúria com seu cenário funcional utilizando tecidos. Bela trilha sonora de Pedro Bierenbaum e correta iluminação de Paulo Cesar Medeiros.

Não fosse prejudicado pelo andamento da adaptação, e um trabalho mais artesanal com alguns dos atores, O Casamento poderia ser celebrado como um dos acontecimentos da temporada, talvez tenha tido muito arroz de festa.

Serviço


Gênero
Comédia
Temporada
de 13 de abril a 30 de junho de 2013
Sextas e sábado às 21h30 e domingo às 18h
130 minutos
Indicação de faixa etária
16 anos
Local
TUCA – Teatro da PUC-SPRua Monte Alegre, 1024 – Perdizes - São Paulo - SP
Capacidade
672 lugares
Acesso para pessoas com deficiência
Ingressos
Sexta R$ 50.Sábado e Domingo R$ 60(Desconto de 50% para Estudantes, Maiores de 60 anos, Aposentados, Professores da Rede Pública Estadual e Classe Artística com DRT)Preço especial PUC-SP(Para estudantes, professores e funcionários da PUC sob comprovação - número de ingressos limitado a 10% da lotação do teatro - compra somente na bilheteria do teatro)VendasPela Internet: www.ingressorapido.com.br Central de Vendas: (11) 4003-1212(aceita todos os cartões de crédito)Horários de funcionamento da bilheteria:De terça-feira à domingo das 14h00 às 20h00.Formas de Pagamento:Amex, Aura, Diners, Dinheiro, Hipercard,Mastercard, Redeshop, Visa e Visa Electron.
Estacionamento conveniado:
Pier Park Estacionamentos - Rua Monte Alegre, 835 - R$15,00 - Tel.: (11) 3120-5052 (Valor válido somente mediante a apresentação de ingressos das peças em cartaz no TUCA)


sábado, 6 de abril de 2013

Pelos olhos de Bette Davis, e pelos meus.......


Bette Davis, não restam dúvidas, foi uma das grandes atrizes de Hollywood, uma verdadeira estrela. Tida como malvada, um erro devido ao filme de mesmo nome, onde Anne Baxter era a atriz cuja personagem se referia o titulo do filme, no entanto o carisma e talento de Bette sempre roubou a cena.
Justa homenagem esta de se fazer uma peça onde se fale um pouco da grande estrela e a faça presente na vida de muitos que não a conheceram e, talvez, só tenham ouvido o nome quando lembrado na música de Kim Carnes "Bette Davis Eyes", fazendo alusão aos olhos da atriz que eram sua marca registrada.
Bette Davis & Eu (originalmente "Me and Jezebel"), de Elizabeth Fuller, nos conta a história, verídica, do enconro da escritora com este ídolo do cinema, e sua convivência por alguns dias.....
A história contada é interessante, porém um pouco cansativa e repetitiva quanto as situações apresentadas, principalmente no que diz respeito a presença de outras personagens falando através de Elizabeth, como se estivessem ali presentes. Além do fato de interromper o ritmo da ação, tal artifício demanda um grande trabalho interpretativo de quem o faz, para que possa diferenciar muito bem cada personagem. Flávia Garrafa, como Elizabeth Fuller, mostra-se uma figura empática, mas que carece de mais energia e recursos para mostrar todas estas personagens que lhe cabem. É nítido o esforço e dedicação da atriz, mas nota-se, talvez, a falta de uma direção mais elaborada para que ela alcançasse este objetivo, pois já demonstrou ,em outros espetáculos, sua incrível veia cômica.
Reticente quanto a interpretação de papeis femininos por homens (e vice-versa), com o receio de se cair no estereótipo mais banal, a composição de Wilson de Santos (Bette Davis) surpreende, e muito!! O artista tem o tom certo da personagem não caindo, em nenhum momento, no lugar comum fazendo com que  a energia e personalidade da grande estrela se materialize no palco. Um trabalho difícil realizado com muita classe.
Claro é o jogo teatral estabelecido por Flavia e Wilson, completamente cúmplices em suas ações, mostrando que isso é ponto fundamental para que o Teatro aconteça.
Alguns descuidos com os objetos de cena poderiam ser melhor solucionados, para deixar mais limpa a cena, que tem um belo e funcional cenário de Theodoro Cochrane, e um belíssimo figurino do talentoso Fábio Namatame.
Alexandre Reinecke, na direção, poderia ter se dedicado mais nas características das personagens criadas por Flavia Garrafa, além de pequenos detalhes que um texto como este exige na sua apresentação (o caso de Bette não trazer nada quando chega sendo que sua interlocutora diz que ela chegou trazendo algumas balas, ou doces).
De qualquer modo um espetáculo que deve ser visto principalmente por relembrar esta grande diva do cinema e mostrar, como já disse, a cumplicidade e grande trabalho de dois atores da atualidade.
Tudo isso pelos olhos de Bette Davis.

Serviço

Bette Davis e Eu

Alameda Santos, 2233
Jardins - São Paulo - SP
(11) 2122-4070
Temporada
Temporada
5 de Abril à 7 de Julho de 2013.
Horário
Horário
Sexta 21:30h | Sábado 21h | Domingo 18h
Gênero
Gênero
Comédia
Preço
Preço
R$ 70,00
Não recomendado para menores de 12 anos.
Classificação
Não recomendado para menores de 12 anos.