sábado, 24 de novembro de 2012

ARTE : Simplicidade, técnica e, às vezes, gosto popular pelo fácil.



ARTE, mais um espetáculo da premiada escritora francesa Yasmina Reza, o terceiro dirigido pelo ator Emílio de Mello.
Na direção de “ O Homem Inesperado”, com Nicette Bruno e Paulo Goulart, Emílio mostrava-se ainda tímido na condução destes dois  grandes atores,mas já mostrava sua vivência teatral no pouco que imprimia de sua direção. Isso se tornou, já, bem diferente, na montagem do ótimo “O Deus da Carnificina”, com interpretações impecáveis de Deborah Evelyn, Julia Lemertz, Paulo Betti e Orã Figueiredo, um texto de humor ácido e contundente, levado a cena com muita sensibilidade e coerência, que só bons atores e um bom diretor sabem fazer quando em sintonia. E esta havia de sobra.
Em ARTE, as personagens vividas por  Vladimir Brichta, Marcelo Flores e Claudio Gabriel , trazem a tona o tema mais que atual o do que é Arte hoje em dia? O que é o contemporâneo? Como bem o sabe explicar o grande filósofo italiano Giorgio Agamben em seu livro de mesmo nome. Mas, além disso, a história fala da amizade entre três homens,  até que ponto um conceito artístico, ou um consenso estabelecido, pode interferir numa amizade de anos e, assim, desestabilizar diversas vidas.
A direção de Emílio de Mello mostra-se muito criativa, principalmente na mudança de cenas e ambientação dos espaços sugeridos pela autora.
Destaca-se a interpretação correta e concisa de Claudio Gabriel, que transmuta-se na sua personagem deixando-se abandonar de suas características pessoais, criando, com muita inteligência, a da personagem que interpreta.
Vladimir Brichta é um bom ator, todavia acomodou-se no sucesso, de gosto popular, de sua personagem do seriado “Entre Tapas e Beijos”, Armane, o qual reinterpreta em seu gestual  e composição de Ivan, tendo claramente possibilidade e bagagem para ousar mais. Marcelo Flores também não arrisca muito na composição de Marcos, tentando muitas vezes, até, sair pelo lado fácil da personagem com piadas que talvez não funcionem muito para o público paulista.
Cenário, iluminação e figurino (em tons de azul), estão corretos na função que lhes cabe, de dar suporte as atuações sem querer ser mais do que os atores em cena.
Enfim, ARTE, é um espetáculo necessário e importante para se ver. Se não pelos atributos técnicos, ao menos pelo texto e a reflexão sobre o papel da ARTE e da amizade no mundo de hoje.

Carlos Eduardo Carneiro


Serviço

Teatro Renaissance
Alameda Santos 2233, Jardins
Tel.: (11) 3069-2286
Sexta às 21h30; sábado às 21h; domingo às 18h
Espetáculo não recomendado para menores de 14 anos
Em cartaz até 25/11/2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Da série ESPETÁCULOS INESQUECÍVEIS: CACHORRO

Foi num Festival de Teatro de São José do Rio Preto que tive o primeiro contato com eles. Havia chegado à tarde e foi o primeiro espetáculo por mim visto naquele Festival. O grupo, a companhia Teatro  Independente, do Rio de Janeiro, formado por jovens recém formados na CAL.  O Cenário já  me conquistou de primeira, simples, luminárias caídas do teto e alguns biombos translúcidos, tudo dando uma atmosfera dos anos 50. E daí o encantamento começa.
Cachorro é um dos primeiros textos encenados do dramaturgo Jô Bilac, jovem talento do teatro que considero um dos maiores dramaturgos da atualidade. Seu texto é simples, bem humorado, surpreendente!! Em Cachorro soube captar todo o universo de Nelson Rodrigues. A facilidade com que usa as palavras e cria as personagens é impressionante, original e simples.
O clima Rodriguiano do espetáculo foi muito bem colocado pelo diretor Vinicius Arneiro, que além de saber enquadrar muito bem o espetáculo na estética pretendida soube, como poucos ultimamente, conduzir muito bem seus atores. Estes, jovens talentos promissores, começam agora a se destacar para o grande público.  Carolina Pismel, Paulo Verlings e Felib Abib. protagonizavam  a trajetória de um triângulo amoroso, formado por amigos. Claro, o marido não sabe desta “sociedade” amorosa da qual faz parte onde a sensação do perigo e do proibido estão a cada momento presentes  na trama. Apesar do final não ter sido muito bem resolvido, o espetáculo traz todos os elementos de histórias de Nelson de “A Vida como Ela É”, e de suas tragédias cariocas, material pesquisado a fundo pelo grupo para a realização do espetáculo.
Mais impressionante que tudo isso, vale dizer que as interpretações dos jovens atores mostra uma energia e força cênica pouco vistas nos espetáculos da atualidade. Some-se a isso o belíssimo figurino de Júlia Marini, também grande atriz do grupo que mostra seu talento dramático em Rebu, outro grande espetáculo do mesmo Jô Bilac.

Muito gratificante, e esperançoso, ver que ainda temos entre nós atores, diretores, dramaturgos, enfim, uma equipe que dá o verdadeiro valor ao Teatro, que sabe a vital importância de seu exercício e comunga disto com o espectador.
Num ano de comemoração do centenário de Nelson Rodrigues uma temporada prolongada deste Cachorro seria uma belíssima homenagem a este grande, e original, dramaturgo brasileiro.
Cachorro!!!  Vale a pena ser mordido por esta matilha.......

Carlos Eduardo Carneiro

domingo, 18 de novembro de 2012

Teatro de Bastidores: uma visão possível e aprazível.





Teatro de Bastidores? O que seria isto? A meu ver, ou sendo um termo criado por mim mesmo, trata-se do espetáculo representado para o público, mas fazendo dele parte do mesmo, envolvendo-o como se ele, espectador, estivesse participando da criação do espetáculo, alimentando sua encenação. É como se os artistas tivessem convidado o espectador para ver como funciona os bastidores de uma peça.
Um bom exemplo deste, digamos, “gênero” de teatro, é o espetáculo Amigas, pero no mucho, de Célia Regina Fortes. Uma deliciosa e inteligente comédia que tem como principal característica de seu êxito ter suas personagens femininas interpretadas por homens.
A parte o fato de retratar muito bem o cotidiano de diversas donas de casa, ou mulheres da classe média de uma grande cidade, o espetáculo dirigido com a competência de José Possi Netto, e toda sua inteligência, é um prato cheio para esta “intimidade” dos atores com o espectador. Através de “cacos” (improvisações) inseridos no momento pelos próprios artistas, que se surpreendem a cada instante, o Teatro de Bastidores, é um exercício de interpretação importantíssimo que pode ser comparado aos improvisos da Commedia dell’arte. Inteiramente de posse de sua personagem o ator se sente a vontade em criar novas falas ou situações que provoquem aquele com quem contracena, o que acaba ocasionando uma “saída” da personagem, que é plenamente admitida e justificada pelo público, pelo fato de ele também fazer parte deste jogo.
Teatro de Bastidores não é para qualquer um, deve ser feito por atores que tenham intimidade com o ofício, como é o caso, nesta montagem, de Elias Andreato e Norival Rizzo, que sabem o que fazer em cena e tiram muito proveito disto arrancando gargalhadas da plateia.  Alex Gruli também se sai muito bem na composição de Sara. Nilton Bicudo deixa sua Olívia um pouco estereotipada, com muita afetação, sem necessidade, mas nada que comprometa o conjunto.
Divertimento sem compromisso e com muitas e muitas risadas é o que nos oferece o espetáculo Amigas, pero no mucho!, desde 2007 em cartaz e que teve em sua primeira montagem o mesmo Elias Andreato, além de Claudio Fontana, Leopoldo Pacheco e Romis Ferreira como as outras amigas.

Dia 20/11 é a última oportunidade de conhecê-las, neste ano, pois tenho certeza que não nos veremos livres tão cedo destas "amigas" (para nossa alegria).

Serviço
Gênero: Comédia
Direção: José Possi Neto
Com: Alex Gruli, Elias Andreato, Nilton Bicudo e Norival Rizzo
Duração: 80 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos
Texto: Célia Regina Forte


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Entrevista



Entrevista:

Ele – E então, uma vez que você se aventura nesta empreitada no teatro o que poderia dizer sobre ele?
Ela – Trata-se de um veículo importantíssimo para o aprimoramento do ator, para testar suas habilidades e exercitar a profissão.
Ele – O que você considera importante no teatro, numa montagem teatral.
Ela – Tudo é importante. Desde a escolha do texto, sua leitura, a iluminação, o figurino, o cenário, são elementos que dão vida a personagem, que a constroem, mas nada disso seria possível sem a figura do Diretor.
Ele – Qual a real importância do Diretor num espetáculo teatral?
Ela – É o verdadeiro maestro. Ele que conduz os atores pelos meandros das personagens, que descobre junto com eles suas fragilidades e caracrterísticas predominantes, que confronta o ator com sua sombra, aquela produzida em palavras pelo autor.


Pois bem, isso poderia ser o mote do espetáculo A Entrevista , do holandês Theodor Holman, baseada no filme de mesmo nome do diretor Theo Van Gogh, em cartaz no Teatro Vivo, tendo como protagonistas Priscila Fantin e Herson Capri.

A história parece banal, um jornalista político que  é desviado de sua especialidade para entrevistar uma estrela das novelas para traçar um perfil de sua personalidade. O texto, bem construído, é um bom exercício para atores, principalmente atores de televisão, que a partir do conhecimento de sua profissão podem transmutar as personagens em seres próximos do público, revelando grande carga humana, e surpreendendo na revelação final. Todavia isso acontece apenas em parte, pois há a necessidade de um trabalho mais sutil com as palavras das personagens, um tranbalho que conduza os atores ao verdadeiro objetivo de suas personagens. 

Priscila Fantin é uma boa atriz que soube muito bem criar uma Mariah convincente em seu papel de diva do “star sistem”, falta, no entanto, a condições, ou melhor conduções, para que sua personagem alce voo. Há que se lembrar que o ato de representar existe (e como existe!), até nas pausas, nos silêncios e principalmente, nas intenções. É visível a dedicação desta grande atriz de novelas, porém a falta de condução deixa a personagem à deriva.

Herson Capri, no papel de jornalista, sabe o que faz em cena, mas também necessita de uma orientação para que o seu Pedro Pierre (sim, este é o nome da personagem), possa ser mais humanizado,  para mostrar mais suas fragilidades escondidas  na armadura de jornalista político, acostumado a tudo por força da profissão.

O cenário de Flavio Graff auxilia muito no desenho da personalidade de Mariah, preocupada com os holofotes e com o culto a sua personalidade.

Este é um espetáculo em que pode ser observada, muitas vezes, a falta que faz o uso  de algumas marcas, as quais auxiliariam muito na condução mais profunda destas personagens vividas por grandes atores televisivos e que teriam uma grande chance em mostrar que no teatro estas máscaras podem, e devem, ser humanizadas.




 Serviço

"A Entrevista"
Onde: Teatro Vivo – Avenida Chucri Zaidan, 860, Morumbi, (11) 7420-1520
Quando: de 16 de novembro a 16 de dezembro; sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 19h
Quanto: R$ 50 (sexta e domingo, inteira), R$ 25 (sexta e domingo, meia), R$ 70 (sábado, inteira) e R$ 25 (sábado, meia) 
Pontos de venda:
- internet: www.ingressorapido.com.br
- call center: 4003-1212
- bilheteria do teatro: de terça a domingo, das 14h às 20h
Duração: 75 min.
Recomendação: 16 anos
Capacidade: 290 lugares

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Hell: Peace in Heaven (17/12/2010)



Hell: Peace in Heaven.

Bárbara, bárbara, bárbara, é o que se pode definir de maneira simples a atuação dela no espetáculo Hell. Bárbara Paz se transforma, se transfigura, numa evolução frenética de construção de personagem, sem qualquer pudor, frente à platéia estupefata.
Ela, Hell, não apenas mostra seu banho de loja mas também, ela, Peace, mostra seu banho de talento e magnetismo cênico. Claro que sempre há pontos a se melhorar, sempre, cada dia uma nova  batalha, uma nova descoberta para se chegar ao Paraíso.  Perfeccionistas como eu sempre encontram, e buscam,  detalhes que devem ser aperfeiçoados para mostrar, ainda, mais todo o talento e dedicação desta maravilhosa atriz, maravilhosa e delicada (dedicada) pessoa.
Hell é um cinema-teatro, uma boutique cênica, uma galeria de arte, uma sedutora sinfonia atual, em virtude de suas peculiaridades e surpresas.

Carlos Eduardo Carneiro

domingo, 11 de novembro de 2012

Não é apenas “Casca”...........





Córtex é a camada mais exterior ou periférica de um órgão, na sua mais simplificada tradução, mas é responsável pelos movimentos do corpo humano e sem ele não haveria percepção, sensação, memória, etc. Córtex, o espetáculo, em cartaz no Teatro Eva Herz, faz alusão a esta memória, a esta percepção, mas quase, quase deixa que tudo não passe de uma “casca”.
O texto de Franz Kepler nos induz a uma viagem cerebral, onde a personagem se serve de suas memórias para desvendar um mistério, uma história a ser contada. Até então parece algo muito interessante, porém o autor se perde ao revelar logo no início e um pouco mais a frente, a chave do mistério......
Protagonizado por Otávio Martins, um ator que vem crescendo a cada novo trabalho,  nos deparamos com uma interpretação dedicada, porém carente de uma direção mais firme, pois a personagem carece de movimentos precisos, de intenções mais claras em cada momento relatado. Até algumas gags incorporadas ao texto, com o intuito de fazer rir, acabam por se perder, uma vez que a situação não permite tal liberalidade, porém  o público ri, ri....
A direção de Nelson Baskerville, que nos presenteou com o sucesso Luiz Antonio Gabriela, tenta repetir a empreitada, com muitos dos elementos utilizados naquele espetáculo, o qual se tornou um hit da temporada. Todavia, Córtex não contém o apelo dramático e sentimental daquele outro texto, que tem uma carga autobiográfica muito forte e da qual muito bem se serviu o diretor. Em Córtex, Baskerville seduz o espectador com uma alta produção, porém acaba por inserir demasiada informação e apelos tecnológicos, o que muitas vezes dispersa o espectador da história a ser contada. Verdade que a tecnologia está aí para ser usada, mas abusada também??
De qualquer forma, Córtex é um desafio para um ator (como o é todo espetáculo solo), porém Otávio Martins fica muitas vezes competindo com os recursos utilizados, o que é uma pena, pois teria muito mais a nos dizer se nele fosse investida um pouco mais de atenção, de cuidado, uma vez que nenhum ator é apenas uma casca, é muito mais do que isso, pois ele deve ser cultivado e alimentado para que pulse junto com o público.

Serviço
Até 9 de Dezembro, Sextas e sábados às 21h. Domingos às 19h
Teatro Eva Herz (166 lugares)
Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional) (Bela Vista) 
Tel: (11) 3170-4059
Duração: 75 minutos. Recomendação: 14 anos.
Preço na Bilheteria: R$ 40,00 (Sextas e Domingos); R$ 50,00 (Sábados)