domingo, 31 de março de 2013

QUASE NORMAL? Não, Quase REAL!!!!!



 Uma surpreendente realização é a primeira coisa que se pode dizer do espetáculo Quase Normal, de Brian Yorkey e Tom Kitt. Tendo como um tema um assunto de difícil digestão, a depressão elevada ao grau de bipolaridade, e ainda apresentado de forma musical, QUASE NORMAL tem da difícil tarefa de entreter e conquistar o público, principalmente concorrendo com outros espetáculos do mesmo gênero (musical) mas com mais apelo comercial. Difícil tarefa mas ele consegue, e muito bem.
Ancorado no texto de Brian Yorkey, a história de uma dona de casa bipolar, revela-se mais comum do que possamos imaginar nos dias de hoje, fazendo com que o espectador se identifique com a protagonista (mais vezes do que possamos imaginar) ou com um de seus familiares.  Um texto delicado que sabe mostrar as duas faces da moeda sem cair no melodramático, ou no lugar comum, apresentando apenas uma falha, a meu ver , de concepção na figura do filho, Gabriel, que em alguns momentos chega a dar a impressão, errônea, de um espírito obsessor. Clara é  idéia de uma lembrança obsessora, mas da forma como é conduzida pode levar a um outro tipo de personagem, mais afeito a peças que discutem a espiritualidade.
Grande trunfo desta montagem ancora-se nas interpretações reveladoras de Carol Futuro, que nos apresenta uma Natalie com muita sensibilidade e talento, sem contar a capacidade vocal e afinação. Ela está muito bem acompanhada de Cristiano Gualda  que interpreta Dan, o pai, que aos poucos evolui em sua interpretação arrebatando o público com sua concepção emocionada da personagem e uma voz que sabe ser colocada, e modulada, de acordo com os momentos pedidos pela sua personagem.
Vanessa Gerbeli, no papel de Diana, é um furacão de emoção. Sendo uma atriz de grade carga emocional e energia cênica, muitas vezes deixa-se levar por ela, em momentos que poderia descobrir em sua Diana sutilezas que lhe são peculiares. Mas nada disso atrapalha a impressionante composição que faz da personagem, são detalhes apenas que poderia aperfeiço
ar sua interpretação, e que pode ser algo a ser pensado quanto ao controle de toda esta energia intepretativa que a atriz possui, e que poderá ser canalizada em seu próprio benefício.
Um espetáculo musicalmente difícil, com melodias sofisticadas que dependem muito da interpretação e segurança musical dos atores, que o fazem de forma exemplar.
Victor Maia no papel de Henry, com uma bela voz, consegue uma empatia com o público, e realiza um trabalho correto, mas percebe-se que tem muito mais para dar a sua personagem, e que poderia deixar alguns "exageros" interpretativos, desnecessários para a composição da personagem. Isso se dá pelo excesso de preocupação em deixar com que as jovens personagens pareçam pais jovens do que são os atores, como o texto manda, porém isso provoca um artificialismo exagerado, principalmente na personagem do filho. Isto, felizmente, não acontece com a personagem de Nathalie (Carol Futuro) que sabe bem dosar e aplicar seu tipo físico (atitudes) à personagem.
André Dias, empresta sua bela voz ao papel do psiquiatra, faz um trabalho correto, o que se espera desta difícil personagem, que poderia cair no exagero de um profissional manipulador, o que felizmente não acontece.
A direção de Tadeu Aguiar poderia ser mais criativa, todavia não compromete o andamento do espetáculo, apesar de algumas falhas de marcação. Vale ressaltar o bom gosto e competência do mesmo Tadeu na tradução, e versnao,  das músicas do espetáculo, bem como sua ousadia em produzi-lo, sendo um tema de difícil digestão para nosso público, principalmente quando se trata de um musical.
Ney Madeira é muito feliz em seu figurino, que cumpre seu papel de "vestir" com bom gosto as personagens, sem querer apesar mais do que elas.
Um adequado e funcional cenário de Edward Montanheiro.
Destaque também para a excelente banda que se apresenta e a qualidade de som apresentada, que em nenhum momento interfere no espetáculo.
Quase Normal, é um musical que deveria ser obrigatório para todas as pessoas, dado a sua extrema atualidade e direcinamento deste gênero de espetáculo que ancora–se sobremaneira na interpretação dos atores que, felizmente, tem ótimos representantes nas figuras de Vanessa Gerbelli, Carol Futuro e Cristiano Gualda, poderia se dizer que é Quase Excepcional!!!

Serviço

Quase Normal
Quando: de 21 de fevereiro a 12 de maio
Quinta e sexta às 21h; sábado às 18h e 21h30; domingo às 18h
Onde: Teatro Faap -Rua Alagoas, 903, Higienópolis
Quanto: R$ 80 (quinta e sexta) e R$ 100 (sábado e domingo)
Vendas:
- telefone: (11) 3662 7233 e 3662 7234
- bilheteria da casa: de quarta à sábado, das 14h às 20h. Domingo das 14h às 17h
Aceita cartão de débito e crédito: Visa, Máster ou Dinners. Não aceita cheque
Estacionamento gratuito, com vagas limitadas
Acesso para deficiente. Ar-condicionado
Capacidade:500 lugares
Duração: 120 minutos, com intervalo de 15 minutos
Classificação: 14 anos
Mais informações: (11) 3662 7233 e 3662 7234


quarta-feira, 20 de março de 2013

Para fazer parte deste FÃ-CLUBE


Dentre as, raras, boas surpresa que se encontram nos palcos de São Paulo, podemos destacar o espetáculo "Fã-Clube", com dramaturgia de Keli Freitas, realizado pelo grupo carioca Cia. Físico de Teatro, que já esteve por aqui com o texto "Savana Glacial", do excelente dramaturgo Jô Bilac.

No espaço alternativo do SESC Consolação (sala Beta), assistimos a história de dois fãs que decidem sequestrar sua "ídola", uma estrela de teatro.  A partir daí, desenrola-se toda a trama que envolve capturadores e capturada, e a relação que se estabelece entre eles.

O texto peca em não deixar claro muitas passagens, que poderiam ser melhor exploradas, e aprofundadas. Muito interessante a forma como a relação das três personagens é mostrada, principalmente na forma apresentada intercalando passado, presente, deixando com que o espectador reflita sobre a influência do tempo no jogo dos três atores. Dentre os quais se destaca o trabalho de Igor Angelkorte, o sequestrador loiro, que cria uma personagem comum ao nosso cotidiano. Contrariamente, Renato Livera, que também dirige o espetáculo (e talvez por isso fique dividido) imprime em seu sequestrador uma personalidade caricata, que funcionaria melhor sem este recurso. Camila Gama tem uma postura firme fisicamente, mas sua personagem carece de um carisma estelar, uma vez que, apesar da sinopse apresentá-la como uma atriz desconhecida, nos faz pensar em  uma grande atriz de teatro. Caso contrário, seria, talvez, o caso de deixar mais claro no texto o desconhecimento desta atriz.

Renato Livera, contrariamente a sua atuação, nos mostra uma direção limpa, correta, sem grandes artifícios, que conduz muito bem o trabalho físico dos atores (impecavelmente), devendo apenas ter dado um pouco mais de atenção as nuances de suas personalidades.

Excelente a precisão dos movimentos com os sons realizados na sonoplastia, bem como a deliciosa trilha sonora (Jamba). Um cenário simples, eficaz e de muito bom gosto de André Sanches nos transporta ao cativeiro desta atriz "aprisionada".

Figurinos(Bruno Perlatto) e iluminação (Renato Machado) no tom certo, e tudo num clima que nos remete aos filmes de Tarantino.

De qualquer forma, não há como não sair deste espetáculo sem ter vontade de assistir outra montagem deste grupo, que caminha artesanalmente, e com consciência, deste fazer teatral.

Serviço

Fã-Clube
Sesc Consolação
Rua Doutor Vila Nova, 245 - Consolação
Tel.: (11) 3234-3000
Quinta e sexta, às 21h
Espetáculo não recomendado para menores de 14 anos
Em cartaz até 26/4/2013