Concerto "à la carte", um espetáculo de Franz Xavier Kroetz, sob a régia de Rui Madeira, um dos grandes encenadores europeus da atualidade, traz como única protagonista a grande atriz Ana Bustorff.
O cotidiano apavora, oprime e incomoda quando escancarado sem pudor, e é isso que provoca a atuação de Ana, seus movimentos, seu discurso interno (pois não há uma única palavra dita por ela).
Apesar de, nesta representação ter momentos de histrionismo, causado por certo nervosismo que visivelmente desconcentrou a artista, num trabalho onde a atenção é essencial, seu trabalho é delicado e comovente. Este exagero se dissolve completamente na apresentação do dia seguinte, com uma interpretação limpa, correta e com a delicadeza de uma gravura japonesa.
Momentos do espetáculo, devido a sua performance, nos remete a grande Giuletta Masina, como também os filmes Um dia muito especial e O Baile, ambos do mestre da poesia Ettore Scola.
Uma luz impecável perpassa momentos onde a solidão do vazio torna-se personagem com quem a atriz contracena. Como uma Sybila da angústia e do automatismo ela profetisa o final inexorável (?) de sua personagem.
No primeiro dia de apresentação o nervosismo impediu que momentos de sutileza, obrigatórios nesta encenação, não se tornassem gigantes a engolir a atriz, que já provou seu grande talento e que, pode sim, através do exercício do mínimo, mostrar ao público deste difícil espetáculo, sua grandeza como intérprete, e isso fica comprovado na apresentação do dia seguinte.
A encenação de Rui Madeira, como sempre, inova e provoca tanto a atriz como o espectador. A sensibilidade na escolha das músicas e nas ações mostradas pela personagem revela um retrato perturbador do cotidiano. O uso de elementos em tons de azul nos objetos, figurino e mesmo na iluminação conseguem assimilar o espírito mais profundo desta história de todos nós. Possível de ser identificado por um espectador mais atento, ou que reflita realmente sobre o caminho que será percorrido pelos passos da personagem.
Concerto "à la carte" pode ser um menu de fiícil digestão, mas sem o qual ninguém sai indiferente e que dependendo de como for servido, torna-se essencial a todos os paladares.

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