sábado, 3 de novembro de 2012

TEATRO É PARA OS FORTES

TEATRO É PARA OS FORTES

Há muito venho me perguntando qual o significado real dos espetáculos encenados hoje em dia, ao menos na cidade de São Paulo? Muito me espanta a qualidade de suas produções, qualidade, em sua essência, extremamente deficiente. Sim, porque uma superprodução não é o suficiente para se fazer um Teatro de qualidade. O que é necessário? O que é ele realmente?
Ora, mais do que ó

bvio que elemento fundamental do Teatro é o Ator (sim, com letra maíscula), pois ele é o responsável por aproximar os Deuses do Homem, ou o Deus de cada um consigo mesmo.
Desde sua criação, de sua primeira manifestação, ele era,e foi, usado para isto, pois com seu poder catártico propiciava ao espectador uma reflexão sobre si mesmo e sobre a sociedade na qual pertencia. Sim, o Teatro, etimologicamente o “local público onde se vê”, deveria permitir que se tivesse esta visão, particular e geral. Todavia, ao menos em nossa cidade, essa acepção está cada vez mais deturpada. Muitas vezes é o local onde não se vê nada, e é usado para longos, e ressonantes, coxilos.
Mas voltemos ao Ator. Ele é o canal, para a transmissão de uma mensagem, de uma reflexão, de um divertimento (com responsabilidade), de uma história. O que se tem presenciado é uma preocupação constante com a estética em detrimento da construção humana, da sedimentação do espírito ao homem. Temos nos dias de hoje grandes encenadores, não há dúvida, mas e diretores?? Então explico, encenadores são aqueles que estão preocupados com a estética, com a “decoração” do espetáculo e, se os atores são um pouco inteligentes, ou experientes, tanto melhor, isso ajudará no tempero do espetáculo. E o diretor? O diretor é aquele que provoca o ator, que busca confrontá-lo com a personagem que ele estará vivenciando, que provoca diante da situação apresentada pelo texto, que o transforma, que o molda diante das circunstâncias apresentadas. Peter Brook bem esclarece que o Ator deve há todo momento lutar para conseguir, e manter, uma tríplice relação: consigo mesmo, com o outro, e com a plateia. Torna-se constante a frequência em que não qualquer relação mantida, ou criada, e muitos atores estão apenas recitando um texto. (Daí a questão a ser discutida em outro momento sobre ser ou não teatro uma apresentação onde alguém “recita uma lista telefônica”).
O encenador é o confeiteiro que quer apresentar um bolo muito bonito, com muitos cremes, enfeites dos mais diversos, e muito colorido, para encantar os olhos. Mas ele também pode, e deve, ser um diretor, aquele que está preocupado com a massa, com o recheio, com a qualidade dos ingredientes de seu bolo, apicando a quantidade certa de fermento, essências, açúcar, etc., um grande cozinheiro.
O final de um espetáculo, hoje em dia, na sua grande maioria, se assemelha a comemoração de um gol numa disputa futebolística. Todos em pé, gritando e aplaudindo. Aplaudindo o que? O fato de ter terminado? De pé por que? Para ir embora mais rápido? Infelizmente a negativa é a resposta a estas duas perguntas. Não há mais um critério sério para o que se está sendo apresentado, convencionou-se, por hábito, por preguiça talvez, que o teatro é um lugar para se ir e aplaudir (e não o lugar onde se vê), mesmo não se entendendo nada (sim, pois isso também acontece muitas vezes).
Mais constrangedor, ou tão constrangedor, é também o encontro de pessoas ditas da “classe artística” que vão cumprimentar os atores, e a equipe, pelo trabalho realizado. Das duas, uma, ou não entendem nada do que viram e são levados pela onda da celebração esportiva, ou vestem-se da máscara ,que deveriam usar apenas quando em cena, para dar apupos e elogiar o desempenho (sofrível ou vergonhoso) que presenciaram. Hipocrisia ou pena? Sou mais propenso a acreditar na verdade, doa a quem doer, como forma de se evoluir. Uma crítica, bem construída, bem fundamentada, é muito melhor para a saúde de um espetáculo, do que cumprimentos jogados a esmo, como o lançamento de um perfume que é borrifado pelos promotores para apenas deixar uma sensação momentânea de prazer.
Sei que me alonguei muito, mas não tanto quanto gostaria, uma vez que há muito, muito pra se dizer sobre o Teatro e sua importância social. Mas não poderia de deixar de aquietar minha mente colocando em palavras algumas dessas minhas preocupações. E, assim, volto ao título deste artigo (?), o Teatro é para os Fortes. Sim, não é uma atividade fácil, precisa-se de estudo, de paixão, dedicação, sensibilidade e amor. Amor ao próximo e a si mesmo, para que possamos evoluir como merecemos.
Carlos Eduardo Carneiro

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