O ofício de Ator engloba diversas características
importantes, reunidas em um único ser que é ele próprio como instrumento de sua
arte, representar. Dentre todas elas a voz é o elemento mais característico
para uma atuação aos moldes tradicionais (claro que o gesto também é
importantíssimo, mas sobre ele falamos num outro momento). É através do
conhecimento dos ressonadores corporais que podemos identificar diversos tipos
de voz e, a partir daí, compormos personagens com características vocais
peculiares.
O trabalho vocal pressupõe diversos cuidados com a voz, sua
manutenção e desenvolvimento. As cordas vocais, ou pregas como querem os
fonoaudiólogos (mas odeio esta denominação), são muito sensíveis pois a fala
está estritamente ligada a nossa respiração, ao ar que inalamos. E aí está um
grande segredo, ou problema enfrentado por diversos atores.
Nos tempos de hoje, apesar de a tecnologia dispor de meios
extraordinários para uma apresentação,
nada substitui a técnica e os exercícios praticados pelo ator para uso
otimizado de sua voz.
Fico indignado quando vejo, em diversas peças de teatro,
atores usando microfones para sua representação, mesmo que os mesmos se
encontrem escondidos nos cabelos ou roupa. Claro é que este novo “utensílio”
criou um novo profissional, o engenheiro de som, pois sem ele, ou numa má
escolha, o resultado pode ser catastrófico. Nada pior do que “apagões” no meio
de falas, ou interferências naquele momento
importantíssimo da atuação...... Por que não investir no próprio Ator?
Por que não capacitá-lo para um bom uso de seus instrumentos corporais???
Cada vez mais se percebe que há certo comodismo, e
imediatismo, pois a tecnologia auxilia na rapidez do produto, mas e o
desenvolvimento desse emissor do produto, deste ser criador que é o Ator?
Toda esta história para se chegar ao fulcro desta questão: a
respiração. Será através dela, de seu controle, que o Ator poderá percorrer os
caminhos de seu corpo e desbravar até mesmo sentimentos nunca antes
experimentado. Nós, enquanto seres humanos, muitas vezes nos esquecemos de
respirar, digo respirar conscientemente, muito mais do que o suficiente para
não morrer.
Me espanta atualmente, o grande número de atores, e atores
já experientes, que sentados na sua “fama
televisiva” tem apenas preocupação com sua vaidade e o número de espectadores
que a sua figura traz ao teatro. Estes mesmos atores deveriam investir na sua
profissão, no seu sacerdócio e apresentar textos de qualidade comprovada mas em montagens
ousadas, ou abraçando personagens que lhes possibilitem uma renovação visceral.
Retomando o assunto, é muito triste o número de atores que
acabam sendo desleixados com sua respiração e colocação vocal transformando-se
naquilo que chamo de “ator fole”. Este tipo de ator, entre uma fala e outra,
por não ter controle de sua respiração, e nem atenção a seus instrumentos
corporais, acaba por respirar pela boca provocando um som que incomoda e não
faz parte de sua composição cênica. Imaginem isso atrelado a um microfone.
Até muito pouco tempo eu verificava isso apenas em alunos de
teatro, a quem corria para corrigir e conscientizar sobre a importância do
trabalho vocal. Todavia, hoje em dia cada vez mais observo que há atores, bons
atores, que estão sendo levados por sua
respiração.
Talvez o espectador mais leigo não tenha consciência deste
fato, mas isto é patente quando colocamos observação neste aspecto da
interpretação.
É preciso, cada vez mais que se dê voz a Voz, que se dê ar à
respiração, para que assim a personagem se purifique deixando em cena a sua
essência e faça com que ela, somente ela, toque o espectador e o desperte para
novas aventuras e descobrimentos íntimos.
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