sábado, 10 de novembro de 2012

A VOZ na berlinda, e não na ribalta......





O ofício de Ator engloba diversas características importantes, reunidas em um único ser que é ele próprio como instrumento de sua arte, representar. Dentre todas elas a voz é o elemento mais característico para uma atuação aos moldes tradicionais (claro que o gesto também é importantíssimo, mas sobre ele falamos num outro momento). É através do conhecimento dos ressonadores corporais que podemos identificar diversos tipos de voz e, a partir daí, compormos personagens com características vocais peculiares.
O trabalho vocal pressupõe diversos cuidados com a voz, sua manutenção e desenvolvimento. As cordas vocais, ou pregas como querem os fonoaudiólogos (mas odeio esta denominação), são muito sensíveis pois a fala está estritamente ligada a nossa respiração, ao ar que inalamos. E aí está um grande segredo, ou problema enfrentado por diversos atores.
Nos tempos de hoje, apesar de  a tecnologia dispor de meios extraordinários  para uma apresentação, nada substitui a técnica e os exercícios praticados pelo ator para uso otimizado de sua voz.
Fico indignado quando vejo, em diversas peças de teatro, atores usando microfones para sua representação, mesmo que os mesmos se encontrem escondidos nos cabelos ou roupa. Claro é que este novo “utensílio” criou um novo profissional, o engenheiro de som, pois sem ele, ou numa má escolha, o resultado pode ser catastrófico. Nada pior do que “apagões” no meio de falas, ou interferências naquele momento  importantíssimo da atuação...... Por que não investir no próprio Ator? Por que não capacitá-lo para um bom uso de seus instrumentos corporais???
Cada vez mais se percebe que há certo comodismo, e imediatismo, pois a tecnologia auxilia na rapidez do produto, mas e o desenvolvimento desse emissor do produto, deste ser criador que é o Ator?
Toda esta história para se chegar ao fulcro desta questão: a respiração. Será através dela, de seu controle, que o Ator poderá percorrer os caminhos de seu corpo e desbravar até mesmo sentimentos nunca antes experimentado. Nós, enquanto seres humanos, muitas vezes nos esquecemos de respirar, digo respirar conscientemente, muito mais do que o suficiente para não morrer.
Me espanta atualmente, o grande número de atores, e atores já experientes, que  sentados na sua “fama televisiva” tem apenas preocupação com sua vaidade e o número de espectadores que a sua figura traz ao teatro. Estes mesmos atores deveriam investir na sua profissão, no seu sacerdócio e apresentar textos  de qualidade comprovada mas em montagens ousadas, ou abraçando personagens que lhes possibilitem uma renovação visceral.
Retomando o assunto, é muito triste o número de atores que acabam sendo desleixados com sua respiração e colocação vocal transformando-se naquilo que chamo de “ator fole”. Este tipo de ator, entre uma fala e outra, por não ter controle de sua respiração, e nem atenção a seus instrumentos corporais, acaba por respirar pela boca provocando um som que incomoda e não faz parte de sua composição cênica. Imaginem isso atrelado a um microfone.
Até muito pouco tempo eu verificava isso apenas em alunos de teatro, a quem corria para corrigir e conscientizar sobre a importância do trabalho vocal. Todavia, hoje em dia cada vez mais observo que há atores, bons atores, que  estão sendo levados por sua respiração.
Talvez o espectador mais leigo não tenha consciência deste fato, mas isto é patente quando colocamos observação neste aspecto da interpretação.
É preciso, cada vez mais que se dê voz a Voz, que se dê ar à respiração, para que assim a personagem se purifique deixando em cena a sua essência e faça com que ela, somente ela, toque o espectador e o desperte para novas aventuras e descobrimentos íntimos.

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