sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Chorinho, ou da delicadeza de representar.




Em cartaz no Teatro Eva Hertz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, “Chorinho”, já montado em 2007, traz dessa vez duas mulheres como protagonistas da história. Em sua primeira montagem as personagens eram vividas por um homem e uma mulher, Cláudia Mello (que está nessa remontagem) como Celeste, e Caio Blat, como Gianni (sim, uma delicada homenagem de Fauzi ao mestre Gianni Ratto que havia falecido no final de 2006), agora substituído por uma mulher, Denise Fraga na pele de Joana.
A história nos conta o cotidiano de uma senhora aposentada que todos os dias passeia pela praça em frente ao prédio onde mora. Praça essa que tem uma “zeladora”, uma moradora de rua, com a qual trava conhecimento e por quem surgem os conflitos da ação.
O texto traz momentos de alta sensibilidade e  poesia  que nos remetem, automaticamente, a tantos moradores de rua pelos quais passamos e que podem esconder ( e escondem) lindas histórias de vida como a de Joana, sem que tomemos conhecimento efetivo deles na paisagem urbana.  No entanto, há passagens que se tornam repetitivas, talvez pela dureza do cenário composto apenas de um banco de praça e os “acessórios” da moradora de rua dentro da “caixa preta” teatral. Somem-se a isso os constantes blackouts para denunciar a mudança de cena, e de tempo.  Certamente a utilização de outros recursos poderia tornar mais leve o espetáculo apresentado.  
Toda essa aridez, entretanto, se torna de certa forma obsoleta ao nos depararmos com a excelente construção de Joana feita por Denise Fraga. A atriz, em cada entrada em cena ilumina o espetáculo com a magia do teatro. Escudada pela direção de ator de Fauzi, que sabe o que faz, ela se entrega totalmente a libertária Joana. Poucas atrizes hoje em dia são capazes de demonstrar este abandono à personagem interpretada, principalmente aquelas, como ela, que já tem uma carreira “global” estabilizada, que lhe permite outros voos interpretativos e efetivamente o fazem, sem qualquer pudor. Aquela figura que acostumamos ver em episódios caricatos na televisão se transforma num monstro cênico que exala sensibilidade, seriedade e preocupação com o difícil ofício de representar. Ela já demonstrou isso na sua belíssima atuação em A Alma Boa de Setsuan, de Brecht, e agora utiliza mais uma vez o teatro não apenas como entretenimento, mas como laboratório  para uma reflexão própria do ator e para que o público também se reconstrua através de seus defeitos e suas qualidades.
 
Chorinho, não, Chorão, de emoção de sentir o prazer de se ver um verdadeiro ato de representação. Só isso, vale a ida ao teatro e conhecer um pouquinho desta libertária Joana.
Carlos Eduardo Carneiro
Serviço
CHORINHO

Teatro Eva Herz. Avenida Paulista, 2.073, Livraria Cultura, Conjunto Nacional, 3170-4059. Terças e quartas, 21 h. R$ 60. Até 12/12.

Nenhum comentário:

Postar um comentário