Em cartaz no Teatro Eva Hertz, na Livraria Cultura do
Conjunto Nacional, “Chorinho”, já montado em 2007, traz dessa vez duas mulheres
como protagonistas da história. Em sua primeira montagem as personagens eram
vividas por um homem e uma mulher, Cláudia Mello (que está nessa remontagem)
como Celeste, e Caio Blat, como Gianni (sim, uma delicada homenagem de Fauzi ao
mestre Gianni Ratto que havia falecido no final de 2006), agora substituído por
uma mulher, Denise Fraga na pele de Joana.
A história nos conta o cotidiano de uma senhora aposentada
que todos os dias passeia pela praça em frente ao prédio onde mora. Praça essa
que tem uma “zeladora”, uma moradora de rua, com a qual trava conhecimento e por
quem surgem os conflitos da ação.
O texto traz momentos de alta sensibilidade e poesia que
nos remetem, automaticamente, a tantos moradores de rua pelos quais passamos e
que podem esconder ( e escondem) lindas histórias de vida como a de Joana, sem
que tomemos conhecimento efetivo deles na paisagem urbana. No entanto, há passagens que se tornam
repetitivas, talvez pela dureza do cenário composto apenas de um banco de praça
e os “acessórios” da moradora de rua dentro da “caixa preta” teatral. Somem-se
a isso os constantes blackouts para denunciar a mudança de cena, e de
tempo. Certamente a utilização de outros
recursos poderia tornar mais leve o espetáculo apresentado.
Toda essa aridez, entretanto, se torna de certa forma
obsoleta ao nos depararmos com a excelente construção de Joana feita por Denise
Fraga. A atriz, em cada entrada em cena ilumina o espetáculo com a magia do
teatro. Escudada pela direção de ator de Fauzi, que sabe o que faz, ela se
entrega totalmente a libertária Joana. Poucas atrizes hoje em dia são capazes
de demonstrar este abandono à personagem interpretada, principalmente aquelas,
como ela, que já tem uma carreira “global” estabilizada, que lhe permite outros
voos interpretativos e efetivamente o fazem, sem qualquer pudor. Aquela figura
que acostumamos ver em episódios caricatos na televisão se transforma num
monstro cênico que exala sensibilidade, seriedade e preocupação com o difícil
ofício de representar. Ela já demonstrou isso na sua belíssima atuação em A
Alma Boa de Setsuan, de Brecht, e agora utiliza mais uma vez o teatro não
apenas como entretenimento, mas como laboratório para uma reflexão própria do ator e para que
o público também se reconstrua através de seus defeitos e suas qualidades.
Chorinho, não, Chorão, de emoção de sentir o prazer de se
ver um verdadeiro ato de representação. Só isso, vale a ida ao teatro e
conhecer um pouquinho desta libertária Joana.
Carlos Eduardo Carneiro
Serviço
CHORINHO Teatro Eva Herz. Avenida Paulista, 2.073, Livraria Cultura, Conjunto Nacional, 3170-4059. Terças e quartas, 21 h. R$ 60. Até 12/12.

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